Imagine uma cachoeira.
Ar enevoado.
Piscina azul. Árvores balançando na borda.
Ouviu também?
Aquele rugido profundo e ondulante enquanto a água cai.
Parece real. Parece quase tangível. Mas isso não está acontecendo com você agora. Você não está pisando naquela pedra molhada.
Então, por que parece isso?
“Por que é que experimentamos esses pensamentos e sensações quase como se os percebêssemos?”
O neurocientista Rodrigo Braga se perguntou isso quando era adolescente.
Ele ouviu sua própria voz interior – narrando pensamentos, repetindo conversas, sussurrando conselhos – e parecia estranhamente alta. Distinto.
Real.
Braga ainda acha estranho. Ele agora trabalha na Feinbg School of Medicine da Northwestern University, em Chicago. Durante anos, ele perseguiu aquele sentimento específico de presença mental. A resposta, ou pelo menos parte dela, apareceu em 31 de março. Sua equipe publicou novas descobertas na Neuron.
Eles não pediram a oito participantes que memorizassem fotos ou repetissem roteiros.
Não é assim que usamos a nossa imaginação na natureza.
Em vez disso, eles lhes entregaram instruções abertas.
Imagine um castelo em uma colina.
Imagine uma música de rock tocando em um rádio.
As instruções eram vagas de propósito. Vago é honesto.
Um scanner de ressonância magnética zumbiu em torno dos oito indivíduos, registrando sua atividade cerebral.
Então a equipe perguntou a eles sobre isso.
A imagem estava nítida? O som era vívido?
Quão realistas pareciam as pedras do castelo? Você ouviu o riff da guitarra?
Mapeando o filme interno
Os dados contaram uma história que a maioria de nós não sentiu.
Não é uma simples reprodução dos olhos e ouvidos.
Você não imagina clicando em “retroceder” em sua entrada sensorial.
Quando os participantes imaginaram locais, seus cérebros se iluminaram na rede padrão A.
Esta é a parte do cérebro que controla o espaço e a navegação no mundo real.
Não importava que o castelo fosse fictício. O cérebro tratou o espaço como se fosse físico.
Quando eles imaginaram a fala – como aquela música de rock – sua rede linguística disparou.
O mesmo ponto que é ativado quando você lê esta frase em voz alta. Ou ouvir alguém lhe contar um segredo.
As imagens e sons imaginários foram fortemente emprestados do hardware existente no cérebro.
Mas há um problema.
Ou uma distinção, talvez.
Essas áreas não são estritamente visuais.
Eles também não são puramente auditivos.
O estudo descobriu que redes de alto nível fizeram o trabalho pesado.
Não as partes do cérebro que decodificam cores brutas, ou bordas de linhas, ou ondas sonoras brutas.
Nathan Anderson, neurocientista da Universidade Brigham Young que trabalhou no estudo, aponta o porquê.
O córtex visual lida com detalhes finos. Bordas. Cores.
Quando você imagina um castelo genérico, você imagina a textura de cada tijolo? Provavelmente não.
Portanto, esses processadores detalhados permanecem silenciosos.
Eles não são necessários.
“As pessoas não imaginam necessariamente pequenos detalhes… então os neurônios que lidam com detalhes visuais específicos não são necessários.”
Stephen Kosslyn, neurocientista de Harvard que não se juntou à equipe, concorda.
Se você pedir a alguém para imaginar o objeto exato que acabou de ver, sim, as áreas de visão despertam.
Mas para cenas gerais? Esses centros de nível inferior podem tirar uma soneca.
Alfredo Spagna, psicólogo em Roma, diz que esta imprecisão é na verdade uma característica, não um defeito.
A vida real não é um despejo de fotos em alta resolução.
São impressões. Conceitos. Um castelo. Uma música.
A maior parte de nossas imagens mentais cotidianas corresponde a essa estrutura de alto nível e poucos detalhes.
O cérebro não reconstrói a cena pixel por pixel.
Ele constrói a ideia disso.
Assim podemos visualizar espaços.
Podemos ensaiar frases.
A sensação é vívida porque as redes que lidam com a realidade espacial e a linguagem estão totalmente envolvidas.
Só não os sensores que coletam dados brutos do mundo.
Braga queria saber por que os pensamentos parecem percepções.
Este estudo sugere que é porque tomamos emprestados os centros de interpretação do cérebro.
Não suas válvulas de admissão.
Há uma diferença, não há?
Ainda.
Um castelo em uma colina.
É sólido o suficiente para se apoiar na mente.
Spagna acha que estamos apenas começando.
Este artigo analisa uma pequena parte desse conceito obscuro e difícil de “vivacidade”.
Ainda há muito que não sabemos sobre como evocamos coisas que não existem.
Quanto da realidade é convincente o suficiente para enganar a mente?




















