Supertempestade solar atinge Marte: surto de elétrons recorde detectado

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Uma recente supertempestade solar, a maior em mais de duas décadas, impactou simultaneamente a Terra e Marte, provocando mudanças atmosféricas dramáticas no Planeta Vermelho. Os orbitadores da Agência Espacial Europeia – Mars Express e ExoMars Trace Gas Orbiter – registaram surtos sem precedentes nos electrões atmosféricos, fornecendo dados vitais sobre como as atmosferas planetárias respondem a condições meteorológicas espaciais extremas. Este evento sublinha os riscos que o clima espacial representa para a tecnologia e destaca as diferenças marcantes entre o ambiente protegido da Terra e as condições expostas de Marte.

O impacto da tempestade em Marte

A tempestade solar, que atingiu a Terra em 11 de maio de 2024, entregou aproximadamente 200 dias de radiação a Marte em apenas 64 horas. Isto causou um aumento substancial na densidade electrónica na atmosfera superior de Marte: um aumento de 45% a 68 milhas (110 quilómetros) e um surpreendente aumento de 278% a 81 milhas (130 quilómetros) acima da superfície. Estas são as contagens de eletrões mais elevadas alguma vez observadas na atmosfera marciana, de acordo com investigadores da ESA.

A tempestade também causou falhas temporárias nos sistemas de ambos os orbitadores – um perigo típico das partículas espaciais energéticas. No entanto, as naves espaciais foram projetadas com componentes resistentes à radiação e protocolos de correção de erros, permitindo-lhes uma recuperação rápida.

Técnica pioneira de medição

Os cientistas utilizaram uma técnica chamada ocultação de rádio para analisar os efeitos da tempestade. Isto envolve a transmissão de um sinal de rádio de um orbitador (Mars Express) através da atmosfera marciana para outro (ExoMars TGO) à medida que mergulha abaixo do horizonte. A refração do sinal revela detalhes atmosféricos, semelhantes à forma como as ondas do oceano se curvam em torno dos objetos.

“Esta técnica tem sido usada há décadas no sistema solar, mas só recentemente a aplicámos entre duas naves espaciais em Marte,” explica Colin Wilson, cientista do projecto da ESA. O momento da observação – apenas 10 minutos após a ocorrência de uma grande explosão solar – foi extremamente afortunado, dado que as observações são actualmente realizadas apenas duas vezes por semana.

Terra vs. Marte: uma história de duas atmosferas

O estudo destaca uma diferença fundamental entre a Terra e Marte. A magnetosfera da Terra desvia grande parte do vento solar, mitigando seu impacto na atmosfera. Marte, sem um campo magnético global, está diretamente exposto à radiação solar.

O evento revelou que a Terra e Marte reagem de maneira muito diferente às partículas carregadas do Sol. O campo magnético do planeta protege a Terra enquanto Marte permanece vulnerável.

Implicações para a evolução planetária e missões futuras

Esta investigação poderá esclarecer como Marte perdeu grande parte da sua atmosfera e água ao longo de milhares de milhões de anos. O influxo contínuo de partículas solares elimina os gases atmosféricos, contribuindo para o atual estado árido do planeta. Compreender este processo é crucial para avaliar a habitabilidade dos planetas a longo prazo.

A onda de elétrons também tem implicações práticas para missões futuras. Populações de elétrons mais densas podem interferir nos sinais de radar usados ​​para estudar a superfície marciana, dificultando potencialmente os esforços de exploração. As descobertas da equipe ajudarão a refinar o planejamento da missão e a melhorar nossa capacidade de navegar e investigar outros mundos.

Este estudo reforça a importância da previsão do clima espacial e a necessidade de um projeto robusto de espaçonaves. A supertempestade solar serviu como um lembrete claro das forças imprevisíveis em jogo no nosso sistema solar e de quão vulnerável pode ser mesmo a nossa tecnologia mais avançada.