Novos dados sugerem que a Terra já estava em decadência muito antes de Chicxulub chegar.
Sessenta e seis milhões de anos atrás, o asteróide atingiu a Península de Yucatán, no México. Terminou o reinado dos dinossauros não-aviários. Isso limpou o tabuleiro. No caos que se seguiu, mamíferos pequenos e adaptáveis correram para nichos vazios. Eles desenvolveram dietas mais rápidas. Corpos maiores. Estilos de vida diversos. Dentro de alguns milhões de anos, eles dominaram a terra.
Mas novas evidências publicadas em 12 de maio no PNAS complicam essa narrativa.
Arturo Casadevall, da Universidade Johns Hopkins, encontrou evidências microscópicas de proliferação de fungos ambientais antes e depois do evento de extinção do Cretáceo-Paleógeno (K-Pg). Os picos não são apenas equipes de limpeza pós-apocalípticas. Houve um surto de fungos cerca de 30.000 a 1.000.000 anos antes do asteroide atingir. Esta floração precoce coincide com intensa atividade vulcânica na Armadilha Deccan, na Índia. Resfriamento. Estresse. Decadência.
Esta descoberta dá nova vida à hipótese de seleção de mamíferos por infecção fúngica, ou hipótese FIMS.
Durante duas décadas, esta ideia controversa argumentou que os fungos deram aos mamíferos uma vantagem evolutiva. Não matando diretamente os dinossauros, mas criando um ambiente hostil onde a biologia dos mamíferos tinha uma vantagem distinta. Répteis e dinossauros que põem ovos não conseguiram lidar com a podridão. Os mamíferos poderiam.
Será este o elo perdido na dominação dos mamíferos? Ou é uma cadeia de argumentos plausíveis que se mantêm unidos pela pura força de vontade?
A podridão antes do impacto
Casadevall e a pesquisadora Rosanna Baker analisaram palinomorfos da Bacia de Denver, no Colorado. Estes são minúsculos restos orgânicos fossilizados – esporos de fungos, hifas, pólen – preservados em sedimentos antigos.
Eles analisaram camadas que abrangem cerca de 60.000 anos do evento K-Pg. A maioria das amostras continha muitas plantas. Algumas camadas? 50% de esporos de fungos.
Altas proporções de fungos sinalizam perturbação ecológica. Mais coisas mortas significam mais fungos comendo-as. Depois do asteróide, isso fazia todo o sentido. Plantas e animais mortos cobriam ecossistemas devastados.
Mas o pico anterior? Isso foi surpreendente.
“O que nos surpreendeu foi a proliferação associada ao vulcanismo Deccan”, disse Casadevall ao Live Science. Isto implica perturbação ecológica antes do impacto do meteoro. Os ecossistemas já estavam estressados. Já enfrentando crescimento excessivo de fungos. O asteróide acabou de desferir o golpe final num mundo que já estava doente.
Isto reflete as descobertas na Nova Zelândia, sugerindo que a floração não era local. Foi mundial.
Por que os mamíferos sobreviveram ao mundo fúngico
O núcleo da hipótese FIMS repousa na biologia dos mamíferos. Especificamente, imunidade e temperatura.
Os fungos são os principais patógenos de plantas, insetos, anfíbios e répteis. As infecções fúngicas sistêmicas que matam mamíferos são relativamente raras. Por que? Sistemas imunológicos sofisticados.
Os mamíferos têm defesas de primeira linha. Os neutrófilos reconhecem as paredes celulares dos fungos. Eles engolem esporos. Eles atacam filamentos invasivos. O braço adaptativo cria anticorpos personalizados. Cria memória imunológica.
A temperatura também desempenhou um papel. Os mamíferos mantêm temperaturas corporais altas e estáveis – 36-40°C (97 a 104°F). Muitos fungos ambientais não conseguem sobreviver a essas condições internas.
Quando o asteróide atingiu, desencadeou o “inverno de impacto”. Cinzas e poeira bloquearam o sol. Florestas queimadas. A escuridão caiu. Matéria morta empilhada.
Os mamíferos podiam se alimentar no frio. Os dinossauros, muitas vezes considerados “de sangue frio”, lutavam para permanecer ativos. A fraqueza os tornou suscetíveis a doenças.
A gestação também importava. Os mamíferos protegeram os embriões dentro do útero. Cordialidade. Imunidade. Blindagem.
Os dinossauros botavam ovos em ninhos. Solo. Matéria vegetal em decomposição. Habitats perfeitos para fungos. Hifas fossilizadas (fios de fungos) foram encontradas em cascas de ovos de dinossauros. Os fungos invadiram os ovos vivos? Ou colonizá-los após a morte? Nós não sabemos. Mas é uma pista.
O caso contra: é complicado
Nem todo mundo compra.
Mary O’Connell, Catedrática de Zoologia da Universidade de Manchester, diz que a hipótese não se ajusta a todas as evidências. Ela emerge de uma cadeia de argumentos de plausidade, e não de uma prova direta.
“Os elos da cadeia são mais fracos do que o enquadramento sugere”, observou ela.
Considere a temperatura corporal. Quando Casadevall propôs isto pela primeira vez em 2005, os dinossauros eram vistos como de sangue frio. Os mamíferos eram de sangue quente. Essa distinção oferecia uma clara vantagem.
Mas sabemos melhor agora. Muitos dinossauros não-aviários—T. rex, Velociraptor, Brachiosaurus – provavelmente também eram de sangue quente. Se os dinossauros eram quentes, por que não conseguiam lidar com o fungo?
Os pássaros são dinossauros vivos. Eles sobrevivem regularmente às pressões dos fungos. Eles geralmente têm temperaturas corporais mais altas do que os mamíferos. A hipótese FIMS luta para explicar isso.
Andrew Flynn, professor assistente de paleobotânica na Universidade Estadual do Novo México, aponta que criaturas de sangue frio como tartarugas e crocodilos sobreviveram ao impacto do asteróide com menos gravidade do que os mamíferos. Se os fungos eram o filtro principal, por que esses sobreviventes de sangue frio se saíram bem?
“Provavelmente não é o fungo que está fazendo com que os mamíferos se levantem e dominem”, disse Flynn.
Jingmai O’Connor, do Field Museum, chama a hipótese de “desfavorecida”. Se os dinossauros (pássaros) modernos sobreviverem a infecções fúngicas, isso minará totalmente a teoria?
A Fraqueza Respiratória
Casadevall e sua colega Dra. Isabel Jimenez estão refinando a teoria. Eles publicaram uma versão atualizada em 2026.
O novo foco? Respiração.
Os mamíferos respiram com pulmões flexíveis. Alvéolos ricos em sangue. A troca gasosa acontece facilmente.
Os pássaros – e provavelmente muitos dinossauros – têm pulmões rígidos e ventilados por sacos de ar. Os sacos de ar funcionam como foles. Eles mantêm o fluxo de ar unidirecional. Mas eles realizam poucas trocas gasosas. Fraco suprimento de sangue.
Este sistema pode transportar esporos de fungos inalados profundamente no trato. Nos sacos aéreos. As células imunológicas lutam para alcançar e limpar essas áreas.
As infecções fúngicas podem se espalhar além do sistema respiratório, chegando aos ossos.
Jimenez argumenta que isso torna os dinossauros portadores de sacos aéreos singularmente vulneráveis. Combinado com a poluição por fuligem e enxofre do asteróide, tornaram-se prováveis infecções fúngicas secundárias. O estresse nutricional os enfraqueceu ainda mais.
Alguns terópodes emplumados e de corpo pequeno podem ter sobrevivido. As penas isolam. Dietas generalistas ajudam. Mas as principais linhagens? Eles podem ter engasgado com os próprios pulmões.
Um osso completamente limpo?
Evidências de fósseis de dinossauros acrescentam textura ao debate.
Em 2022, Cary Woodruff, do museu de Miami, descreveu um saurópode do Jurássico Superior de Montana. MOR 7029. Viveu há 150 milhões de anos. Muito antes do asteróide.
As vértebras do pescoço do saurópode apresentavam lesões incomuns. Ossos do pescoço cheios de ar geralmente têm cavidades lisas, semelhantes a vidro, onde o tecido do saco de ar encontra o osso.
Este exemplar? Duro. Irregular.
“Como cabeças fossilizadas de florzinhas de brócolis”, disse Woodruff.
Outros paleontólogos confirmaram: infecção respiratória. Aerossaculite. Inflamação que se espalha para o osso (osteomielite).
Poderia ser fúngico? Talvez. Nas aves modernas, a aspergilose causa problemas semelhantes. As bactérias também poderiam fazer isso. Sem tecidos moles, eles não conseguiram confirmar o patógeno.
Mas Woodruff suspeita que a infecção tenha matado o saurópode. Muito fraco para caçar. Muito doente para beber.
Isso mostra que os dinossauros podem contrair infecções fúngicas graves. Isso não prova que os fungos os eliminaram na fronteira K-Pg. Apenas que a suscetibilidade existia.
O resultado final
A hipótese FIMS oferece um ângulo provocativo sobre a dominância dos mamíferos. Isso sugere que os fungos não eram apenas necrófagos. Eram pressões seletivas.
Os mamíferos tinham imunidade. A temperatura. A proteção.
Os dinossauros tinham vulnerabilidade respiratória. Os ovos expostos.
Mas os céticos permanecem. O asteróide causou tsunamis. Terremotos. Colapso global da rede alimentar. Os grandes dinossauros no topo das cadeias alimentares morreriam independentemente da suscetibilidade aos fungos.
Precisamos de mais evidências. Doença fúngica elevada em fósseis de dinossauros pós-asteróide. Esporos de fungos patogênicos identificados no registro sedimentar na fronteira.
Até então, o mundo dos fungos continua sendo uma hipótese. Um convincente. Mas ainda é uma hipótese.
Os fungos deram vantagem aos mamíferos? Ou será que os mamíferos sobreviveram apenas porque eram pequenos, escondidos e tinham sorte? A podridão conta uma história, mas o final ainda está sendo escrito.




















